Experiência | 354 experiências práticas em autocuidado no SUS

Dezessete mostras – somando momentos presenciais e on-line em diferentes dias – com 354 experiências práticas produzidas por 1.586 alunos em oito estados. Esse é o saldo da primeira oferta do curso Saúde e Bem Viver, realizada de setembro de 2024 a agosto de 2025, pelo Observatório Nacional de Saberes e Práticas Tradicionais, Integrativas e Complementares em Saúde (ObservaPICS/Fiocruz) e outros parceiros, com financiamento do Ministério da Saúde. As atividades, que somaram 120 horas de aula em cada turma,, foram coordenadas por escolas de saúde pública e secretarias estaduais de saúde.

Voltado a potencializar o cuidado entre profissionais no SUS, o curso tem a proposta de promover o bem-viver entre os trabalhadores da Atenção Primária à Saúde (APS), aqueles que estão mais perto da comunidade, seja nas equipes da Saúde da Família e nas equipes e-multi, reunindo médicos, agentes comunitários de saúde, enfermeiros, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, nutricionistas, fisioterapeutas etc.

“O bem-viver vai além do bem-estar, porque envolve a relação da pessoa consigo mesma e com o território, incluindo o ambiente físico e social, as tradições culturais e a ancestralidade individual e coletiva”, explica a pesquisadora Islândia Carvalho, coordenadora executiva do ObservaPICS.

O curso foi aplicado, on-line e presencial, à profissionais de saúde de 458 municípios do Acre, Goiás, Mato Grosso do Sul, Maranhão, Paraíba, Paraná, Rio Grande do Sul e Santa Catarina. As aulas foram conduzidas por tutores capacitados pela equipe do ObservaPICS e pelas escolas de saúde pública dos estados, ligadas à Secretarias de Saúde, a partir de um conteúdo matriz, disponibilizado em plataforma específica.

Em cada estado, as escolas promoveram a seleção desses tutores e indicaram dois coordenadores, um pedagógico e outro de articulação no território. Essa formação inicial ocorreu de forma híbrida, presencial e remota. Posteriormente, os estados, em momentos diferenciados, promoveram a divulgação e captação de alunos. Conteúdos foram adaptados à realidade e necessidade de cada estado. Foram trabalhados com os estudantes temas relacionados ao autocuidado em saúde mental e uso de práticas integrativas.

Nesta edição do Boletim Evidências, apresentamos resultados parciais dessa oferta e uma avaliação inicial dos coordenadores, da equipe técnica do ObservaPICS e do Ministério da Saúde. Revelamos também dados acerca da opinião coletada de tutores, coordenadores e os profissionais de saúde que passaram pela formação.

Estados participantes do SBV

Agindo no território e em equipe

As mostras de encerramento do curso Saúde e Bem Viver, realizadas nos oito estados da primeira oferta, foram momentos de celebração e reflexão, indo muito além da apresentação dos Projetos de Intervenção (PI) propostos pelos estudantes para seus territórios, executados, em sua maioria, nos serviços de saúde da APS. Esses PIs correspondem ao trabalho de conclusão de curso, desenvolvidos na terceira fase da formação, denominada “Agir no território”, na qual os estudantes, em equipes, fazem análise crítica do cuidado em saúde no seu território, apresentando intervenções para melhorar a assistência à saúde. As propostas são baseadas em experiências práticas, reflexões teóricas e características sociais, demográficas e culturais de cada local. Essa etapa sucedeu o “Cuidar de si” e o “Agir em equipe”, primeira e segunda fases, respectivamente.

Doenças crônicas não-transmissíveis, saúde da mulher, saúde materno-infantil, do trabalhador, prática de atividade física, saúde mental e autocuidado foram alguns dos temas abordados pelos estudantes em seus PIs. A maioria fazendo uso das Pics. Para Flávia Reis, da equipe do ObservaPICS/VPAAPS, uma das responsáveis pela parte pedagógica do curso, os projetos elaborados mostraram articulação com o território, com a realidade e contexto nos quais estavam inseridos, assim como o trabalho em equipe.

Mostra presencial do Acre, em 22 de julho, na Escola de Técnica de Saúde Maria Moreira da Rocha. Foto: Divulgação.

Saberes tradicionais

Como exemplo, Flávia cita o projeto realizado em uma área com população indígena, no Acre, no dia do exame preventivo ginecológico. As mulheres foram recebidas com músicas de sua cultura, num ambiente em que folhas de ervas foram espalhadas no chão, tornando o espaço mais acolhedor e ajudando a quebrar a tensão causada pelo procedimento. “O projeto Saúde e Bem Viver acendeu nos participantes a ideia de que eles podem fazer mais e melhor para oferecer uma assistência mais humana, ter mais proximidade com a comunidade, derrubar barreiras”, avaliou Flávia Reis, que também acompanhou o evento de fechamento em Goiás, onde as apresentações dos projetos foram divididas de acordo com os momentos do curso.

Presente nas mostras do Maranhão, Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, a apoiadora técnica do ObservaPICS Carine Nied, que integra a frente de articulação do Saúde e Bem Viver, analisa que esse momento de conclusão deu visibilidade ao percurso da formação e as possibilidades existentes no contexto de cada território, dentro das áreas em que os estudantes estavam inseridos, fosse vacinação ou saúde da família. “As mostras permitiram trocas entre os estudantes. Através do caminho metodológico eles foram conhecendo e experimentando conteúdos que podiam ser levados para o dia a dia de cada um deles. A maioria deles trouxe uma atividade com Pics, embora isso não fosse uma obrigatoriedade nos trabalhos”, afirma Carine.

Foto: Divulgação

Impacto na oferta de Pics

Carine correlaciona o curso ao aumento da oferta de Pics no SUS, nos estados onde a formação foi implantada. Esse é o caso do Maranhão. No primeiro semestre de 2025, foi verificado em todo o estado um crescimento de 29,4% em relação ao mesmo período de 2024. “Esperamos um resultado de atendimentos em Pics muito superior ao aguardado para 2025. Para além de números, nos monitoramentos realizados, podemos ouvir relatos dos profissionais informando o quanto esses projetos impactaram suas vidas e seus resultados nos territórios”, diz a coordenadora estadual das Pics, Silvanilde Carvalho. Em relação ao quantitativo de municípios com práticas integrativas, o incremento foi de 4,3%, passando de 186 no ano passado para 194 neste ano.

Em terras maranhenses, o Saúde e Bem Viver envolveu 27 municípios. Em dois deles, Itapecuru Mirim e Alcântara, também foi aplicado o projeto Linhas de Cuidado em Saúde Mental e Dor Crônica com Oferta de Pics no Cuidado Integral – na época em fase piloto – outra iniciativa do MS em parceria com a Fiocruz e secretarias de saúde.

Representantes dessas duas cidades levaram as experiências exitosas em Pics obtidas com os dois projetos para 34ª Congresso do Conselho de Secretarias Municipais de Saúde do Rio Grande do Sul (Cosems/RS), realizado em Gramado, em agosto deste ano. Também foram apresentados no evento, os projetos de intervenção de municípios sul-rio-grandenses participantes do Saúde e Bem Viver. No total, 21 trabalhos com Pics foram difundidos.

No estado sulista, o Saúde e Bem Viver reuniu 166 estudantes que produziram 74 PIs, dentro de cinco linhas temáticas: Pics como estratégia ampliada de cuidado em saúde coletiva no território (20); Promoção do autocuidado em saúde mental de base comunitária como estratégia ampliada de cuidado em saúde coletiva no território (9); Promoção do autocuidado em saúde mental nas equipes por meio das Pics (21); 40 Promoção de ações intersetoriais em saúde coletiva no território (10); Gestão das equipes e reflexão dos processos de trabalho (14). Nos 82 municípios participantes, o aumento do número de procedimentos de Pics foi de 8,64%, de janeiro a agosto de 2025 em relação ao mesmo período do ano anterior. No estado, o avanço foi de 1,54%.

No Acre, a evolução foi de 11%, quando comparados os procedimentos de 2024 com o período de janeiro a julho de 2025. Para a referência técnica estadual em Pics, Valéria Teixeira, além do crescimento do atendimento no estado, houve maior demanda dos profissionais por cursos nessa área, principalmente por massagem, automassagem e aromaterapia. “Nossa expectativa é que a demanda por formação e os atendimentos aumentem ainda mais. O Saúde e Bem Viver apresentou uma nova forma de cuidado. Mais integral, com olhar mais humano, mais próximo dos usuários do SUS”, destaca. Ela interliga o curso financiado pelo Ministério da Saúde ao incremento nos atendimentos coletivos com Pics, sendo os idosos os mais beneficiados com isso. No Acre foram 307 estudantes de 19 municípios e dez tutores.