Experiência | Práticas integrativas e as concepções de cuidado
Já parou para pensar que as práticas integrativas e outras mantidas por povos tradicionais são formas de cuidado consigo ou com os outros? E que esse conceito de cuidar vai muito além de oferecer alguma forma de assistência? Pode ser cuidado interpessoal, com ou sem alguma tecnologia, em grupo, em rede, numa dimensão física, psíquica, emocional ou cultural?
O ObservaPICS passou a se chamar, em maio deste ano, Observatório Nacional de Saberes e Práticas Tradicionais e Integrativas de Cuidado em Saúde para evidenciar que tais práticas integram modos diversos de produzir saúde, mobilizando escuta, vínculo, saberes tradicionais, experiências comunitárias, terapêuticas e formas de atenção voltadas à integralidade da vida.
“O cuidado está na linha de frente quando uma prática promove saúde, previne o adoecimento ou seu agravamento, fortalece vínculos, amplia a autonomia, estimula o autocuidado e ajuda as pessoas a pensarem sobre si, sobre seu corpo, sua saúde mental, emocional, social e territorial”, explica a pesquisadora da Fiocruz, Islândia Carvalho, coordenadora do ObservaPICS.
No Brasil, a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares em Saúde reconhece institucionalmente 29 práticas no SUS. O Observatório, ao adotar o termo “cuidado” em seu nome, reforça a necessidade de ampliar a reflexão sobre como essas práticas contribuem para uma atenção mais integral, participativa e sensível aos contextos de vida das pessoas e comunidades.
“As Pics produzem cuidado ao favorecerem escuta, vínculo, a troca em grupo, o autocuidado, a autonomia, a saúde da comunidade e a relação com o território”, argumenta Islândia Carvalho.
No ensaio Perspectivas filosóficas e sociológicas sobre o conceito de cuidado e as Práticas Integrativas e Complementares em Saúde, publicado na revista Saúde em Debate (Volume 49, nº 145, de 2025), a pesquisadora e as co-autoras Maria Eduarda Guerra e Beatriz Guimarães afirmam que as Pics, “enquanto expressão de cuidado sob a ótica vitalista, representam uma abordagem que une saberes técnicos e populares e promove relações de troca, reciprocidade e confiança”. Elas mencionam que práticas coletivas, tais como o tai chi chuan e a biodança, ou mesmo individuais, a exemplo da fitoterapia, “valorizam tanto o conhecimento científico quanto os saberes tradicionais e criam um espaço no qual os usuários participam ativamente do processo de cuidado”. Essas práticas desafiam as dinâmicas de poder na assistência à saúde, completam, provocando “protagonismo, incentivam a participação ativa dos usuários no seu processo de cuidado”. Essa abordagem filosófica e sociológica do cuidado, reforçada pelas Pics, é essencial para a construção de um sistema de saúde mais justo, humano e eficiente, concluem. “Nem todas as Pics se alinham a essa perspectiva ampliada do cuidado, considerando suas diferenças cosmológicas, epistemológicas e práticas.
Os pesquisadores Octavio Augusto Contatores, Ana Paula Malfitano e Nelson Filice fazem uma abordagem sociológica sobre o cuidado no artigo Por uma sociologia do cuidado: reflexões para além do campo da saúde publicado no periódico Trabalho, Educação e Saúde (TES) (v. 17 n. 1, 2019). “O cuidado está, conceitualmente, na dimensão da solidariedade, do respeito e do zelo na relação entre sujeitos”, afirmam. Defendem, com base na revisão de literatura, que o cuidado não está restrito a dimensão individual dos sujeitos, e que ao compreendê-lo no interior da estrutura social, ele passa a ter a dimensão política, estando também nas relações entre o Estado e a população. “Faz-se necessário um aprofundamento de uma sociologia do cuidado”, concluem.

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