Experiência | Entrevista | Leonardo Matos

“Cresce o interesse internacional pelo reconhecimento dos saberes populares e ancestrais”

Leonardo Matos é coordenador do Movimento Pela Saúde dos Povos. Ele explica a importância de uma publicação sobre fitoterapia e plantas medicinais aberta não só a cientistas, mas a todos que produzem ou resgatam conhecimentos nessa temática, como é o objetivo da edição especial da Revista Saúde em Debate.

Boletim Evidências – Qual a importância dessa publicação da Revista Saúde em Debate sobre fitoterapia, que vai além da comunicação científica e abrange experiências de movimentos sociais com o tema?

LEONARDO MATOS – A importância é grande. A fitoterapia e o uso de plantas de medicinais não é um tema novo para nós, no Brasil, em primeiro lugar pela força que os conhecimentos ancestrais têm na formação da sociedade brasileira e nas práticas populares de saúde. Em segundo lugar porque o Brasil, através do SUS, tem sido pioneiro e inovador na implementação de políticas como a PNPICS, as farmácias vivas, e mesmo na regulamentação sanitária dos fitoterápicos. Mas, ainda que existam alguns avanços, essas políticas ainda têm ocupado um lugar periférico nos debates sobre a política nacional de saúde. E muitas vezes tais temas têm sido tratados de forma isolada dos movimentos sociais, das comunidades e das práticas concretas de uso das plantas medicinais, ou a partir de uma perspectiva que busca submeter a autonomia sobre o uso e aplicação desses conhecimentos à normatização biomédica, econômica e sanitária convencional pelo Estado. Então, o debate promovido pelo número temático é fundamental para pensar o reconhecimento de direitos e a implementação de políticas de saúde interculturais.

BOLETIM EVIDÊNCIAS – Por que agregar, aprofundar o conhecimento sobre plantas medicinais, incluindo o saber de povos tradicionais, contribui para a saúde global?

LEONARDO MATOS – Na última década há um crescente interesse internacional sobre como reconhecer e incorporar os saberes e populares e ancestrais – entre eles o uso de plantas medicinais – às políticas de saúde e aos sistemas de saúde. Isso por uma série de razões, como a busca por políticas mais adequadas às culturas locais, a compreensão do caráter colonial da biomedicina que hierarquiza epistemologias e conhecimentos, e pelo reconhecimento da centralidade de agentes territoriais e comunitários organizados na promoção da saúde. Nesse sentido, trata-se de um tema muito relevante, especialmente para países do Sul Global. Existem muitas lições dos países latino-americanos que ainda precisam ser mais bem trabalhadas e compartilhadas. Também existem muitas experiências na Ásia e na África que simplesmente desconhecemos. O fortalecimento desse debate é fundamental para pensar a saúde desde o Sul e em sistemas de saúde universais e interculturais no século XXI.

BOLETIM EVIDÊNCIAS – O que é o Movimento Pela Saúde dos Povos e o que deseja em 2026?

LEONARDO MATOS – O Movimento Pela Saúde dos Povos é um movimento social internacional ou uma articulação de redes de organizações, movimentos de todo o mundo reunidos em torno da defesa do direito universal à saúde e da defesa de saúde para todas e para todos em todo o planeta. O movimento fez 25 anos em 2025, foi fundado em 2000 em Sávar, Bangladesh, quando foi realizada a primeira Assembléia Mundial da Saúde dos Povos, evento que reuniu movimentos sociais, organizações da sociedade civil e outras entidades, redes que lutavam pelo direito à saúde em diversas partes do mundo, em todos os cinco continentes. Em 2000 esses movimentos se juntaram, diagnosticaram a necessidade de que houvesse uma organização internacional que pudesse representar em nível global a luta pelo direito à saúde e articulasse esse conjunto de atores em torno da bandeira da saúde para todos e para todas. O movimento tem atuação hoje em mais de 60 países, principalmente do Sul Global. Consideramos que a saúde é determinada socialmente, que as relações capitalistas de produção e que o capitalismo como um todo é um modelo econômico e social que gera enormes desigualdades, exclusão e que prejudica a saúde, danifica a saúde de pessoas de todas as regiões do mundo, especialmente as mais vulneráveis, e que por isso a luta precisa ser organizada de forma coletiva para fazer frente e criar alternativas políticas para que de fato o direito à saúde seja uma realidade no mundo. O Movimento pela Saúde dos Povos, no ano de 2026, vai continuar trabalhando com uma série de temas, como sistemas de saúde, soberania alimentar e nutricional, justiça de gênero e saúde, as relações entre guerras, conflitos e o direito à saúde, a relação entre a crise ambiental, a crise climática e a saúde. Todos esses temas são trabalhados ao longo dos anos em diversas campanhas, em diversos espaços, em diversas iniciativas e no ano de 2026, em especial, o Movimento vai se dedicar à organização de uma campanha internacional junto com diversas outras organizações e movimentos sociais, de fora do campo da saúde, inclusive, contra a privatização e a financeirização dos direitos e da vida, em defesa dos direitos sociais. Então é mais ou menos essa a agenda do Movimento Pela Saúde. Além disso, também temos pautado muito a defesa da soberania dos povos e das nações contra as agressões internacionais e contra o imperialismo, que tem se fortalecido cada vez mais nesses últimos tempos, e ao mesmo tempo também atuamos pelo reconhecimento dos saberes ancestrais e de todos os povos originários do planeta.

Estados participantes do SBV
Mostra presencial do Acre, em 22 de julho, na Escola de Técnica de Saúde Maria Moreira da Rocha. Foto: Divulgação.

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