Ciência | Entrevista – Islândia Carvalho

“Temos passivo enorme de trabalhadores em sofrimento mental”

A coordenadora executiva do ObsrvaPICS, Islândia Carvalho, analisa o projeto Saúde e Bem Viver e fala sobre o futuro da formação.

Boletim Evidências – Como avalia os resultados do Saúde e Bem Viver? Os objetivos da formação estão sendo atingidos?

Islândia Carvalho – Quando iniciamos o curso Saúde e Bem Viver: Cuidado integral para a saúde mental, tínhamos como princípio a escuta e a construção coletiva e colocamos todo o material para ser avaliado criticamente pelas escolas e as referências em Pics que trabalhavam com o ObservaPICS desde o projeto FortesPics. Vemos que esse foi um dos grandes acertos do curso, acreditar na potência dos territórios, visto que ao ser acolhido pelos trabalhadores da Atenção Primária à Saúde (APS) o curso tomou uma dimensão e teve repercussões incríveis. Quando participo de mostras sempre falo, não foi o ObservaPICS, não foi a Fiocruz que construiu, fomos nós.

Boletim Evidências – A interação com as escolas de saúde pública do SUS tem sido uma experiência produtiva? Por que foi importante trabalhar com as equipes desses serviços ou selecionadas por elas? Os tutores atendem ao que se desejava?

Islândia Carvalho – As escolas de saúde pública foram fundamentais para a execução do curso. A dimensão nacional só foi atingida porque tivemos parceiros e parceiras nas escolas comprometidas com o curso. precisamos investir mais no potencial das escolas de saúde pública. Também ficaram evidentes duas situações importantes que precisamos analisar com cuidado. Primeiro a necessidade de investir em projetos coletivos e participativos com os trabalhadores desde o panejamento, não apenas a execução. Segundo que temos um passivo enorme de trabalhadores em sofrimento mental na APS.

Boletim Evidências – Há uma repercussão positiva entre os alunos. O que as mostras de experiências e as avaliações estão apontando em relação ao futuro do Saúde e Bem Viver?

Islândia Carvalho – Temos repercussões positivas, muitos relatos de mudanças nos territórios. Todavia, devemos lembrar que os territórios da APS enfrentam cotidianamente as repercussões das desigualdades no Brasil. Literalmente, a depender da localização da unidade, esses profissionais expõem seus corpos e suas vidas à violência e ao desgaste emocional para lidar com diferentes tipos de sofrimento, e muitas vezes eles não têm ferramentas para lidar com isso. O curso visa contribuir com essa lacuna, ampliar o leque terapêutico visando o cuidado integral e, para isso, o primeiro olhar é acolher o profissional. Estimular para que ele tenha ferramentas para seu autocuidado e ao mesmo tempo comprometer a gestão em saúde que essa é uma pauta importante. Desse modo, ao analisar os resultados do curso temos ressignificado o cuidado, os afetos e o trabalho em equipe nos territórios, e esses são resultados são mais difíceis de mensurar. Por isso a próxima fase do curso é avaliar para compreendermos de fato qual o impacto nos territórios.