Experiência | Curso transforma rotinas de cuidado em unidades de saúde

Com foco no cuidado integral e no uso de práticas não biomédicas na saúde pública, o curso Saúde e Bem Viver – Cuidado Integral para a Saúde Mental tem impulsionado profissionais da Atenção Primária à Saúde (APS) a implementarem as Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (Pics) em seus territórios. A formação tem resultado em atendimentos mais efetivos, coletivos e com impacto direto na saúde de usuários e trabalhadores do SUS.

Psicóloga há quase 20 anos, Vânia Estigarribia atua na Unidade Básica de Saúde Maria Rita Santa Sena Campos, em Bodoquena (MS), município com 8,9 mil habitantes, localizado a 265 km de Campo Grande. Durante 15 anos, foi a única psicóloga da unidade, responsável por atendimentos clínicos individuais. Nesse período, conviveu com uma fila de espera constante e com a frustração diante da lentidão nos resultados das consultas mensais.

YOGA – A busca por um cuidado mais efetivo e com respostas em menor tempo ganhou força após sua participação no curso Saúde e Bem Viver. Desde maio deste ano, ela coordena sessões de yogaterapia e meditação voltadas a 29 cuidadoras — mães, avós, tias e madrastas — de crianças e adolescentes neuroatípicos. Os encontros ocorrem duas vezes por semana, com duração de 50 minutos cada um deles. “Essa é uma oportunidade que elas têm de focar em si, no momento presente, e deixarem os problemas de lado”, afirma a psicóloga.

O bom resultado da iniciativa levou à ampliação do serviço. Atualmente, dez crianças neuroatípicas, com idades entre 5 e 11 anos, participam das atividades às sextas-feiras. Pacientes adultos com ansiedade e depressão também passaram a ser encaminhados para a yogaterapia, após estabilização no atendimento individual. “Fui estudar yogaterapia por causa do curso, que me trouxe muitas possibilidades e abriu minha mente. Já queria oferecer uma Pics, mas não tinha formação. Com o atendimento coletivo, me sinto realizada ao ver resultados mais eficazes e em menos tempo”, relata.

Além da yogaterapia, Vânia se especializou em auriculoterapia e, com isso, reativou o grupo de controle do tabagismo da unidade, parado há quatro anos. Atualmente, 16 pacientes participam das atividades e conseguiram parar de fumar. Mãe atípica de uma jovem com Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), ela acredita que o autocuidado também é ferramenta essencial no processo terapêutico. De acordo com a psicóloga, o sistema de informação em saúde usado em Bodoquena contabilizou 3.323 atendimentos em yogaterapia em três meses, levando a redução de 60% da fila de espera.

AROMATERAPIA – No Nordeste, uma experiência semelhante ocorre em Mulungu (PB), município a 90 km de João Pessoa. A enfermeira Isabel Rodrigues, 25 anos, e sua mãe, a agente comunitária de saúde (ACS) Adriana Rodrigues, 50 anos, desenvolveram o projeto Construindo Sonhos em uma comunidade de alta vulnerabilidade social. A ação teve início em junho, depois a conclusão do curso.

A iniciativa reúne 15 mulheres no anexo de uma escola do Conjunto Aquiles Leal para encontros semanais com rodas de conversa, oficinas de crochê e práticas de autocuidado, como escalda-pés e aromaterapia. O espaço foi cedido pela Secretaria Municipal de Educação e Cultura. “Nosso objetivo é proporcionar uma pausa para essas mulheres, que vivem em um cenário de violência, ansiedade e depressão. Muitas sofrem com a realidade de ver seus filhos se envolvendo com o crime”, explica Isabel.

Adriana, ACS há 30 anos, afirma que sempre sonhou em oferecer uma atividade voltada para essas mulheres, mas faltava apoio. “Com o curso, encontrei o caminho. Além do aprendizado sobre as Pics, que são encantadoras, vi a chance de despertar nelas um novo olhar sobre a vida, um horizonte diferente que as tire do sofrimento”, afirma.

A equipe do projeto conta ainda com uma assistente social e recebeu apoio da Secretaria Municipal de Assistência Social para aquisição de linhas e agulhas de crochê. A ideia agora é ampliar a iniciativa e oferecer oficinas com foco em fitoterapia, aproveitando o conhecimento popular e a presença de plantas medicinais nos quintais da comunidade.