Ciência | Entrevista – Jorge Barreto
“São fundamentais as epistemologias que reconheçam a diversidade cultural, histórica e social das Pics”
O pesquisador Jorge Barreto, da Fiocruz Brasília, tem se dedicado a estudos que buscam evidências sobre o uso de Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (Pics), visando oferecer mais segurança à utilização dessas terapias no Sistema Único de Saúde. Ao mesmo tempo que identifica na literatura científica pesquisas que validam práticas com impacto no controle de diferentes formas de adoecimento e na promoção do bem-estar físico e psíquico dos usuários, Barreto discute sobre epistemologias necessárias a esse campo e outros desafios existentes na produção de evidências acerca das Pics. Nessa entrevista ao Boletim Evidências, ele fala de achados dos seus mais recentes estudos e reflete sobre conceitos e metodologias a serem explorados. Dois dos três mais recentes estudos do pesquisador podem ser acessados nos links abaixo:
Boletim Evidências – Que novos estudos você tem realizado sobre Pics? O que as pesquisas sobre evidências científicas estão apontando acerca das práticas integrativas?
JORGE BARRETO – Temos nos envolvido em projetos que buscam aproximar duas agendas que considero estratégicas: o fortalecimento das políticas informadas por evidências e a expansão do uso das Práticas Integrativas e Complementares em Saúde no SUS. A ideia foi olhar para as oportunidades de usar Pics no nosso sistema de saúde de forma mais acessível e equitativa, em especial na Atenção Primária à Saúde (APS). Por exemplo, em três estudos de revisão, dois dos quais já foram publicados, focamos em condições crônicas muito prevalentes, como dor crônica, hipertensão e diabetes, para mapear diretrizes clínicas internacionais e identificar quais práticas já contam com recomendações mais consistentes e seguras em diferentes países. No caso da dor crônica, vimos que práticas como acupuntura, osteopatia, quiropraxia e ioga aparecem de forma recorrente como opções eficazes e seguras, principalmente para dor lombar. Isso é relevante porque mostra que não se trata apenas de preferências individuais, mas de recomendações sustentadas, ainda que a qualidade da evidência seja, em muitos casos, baixa a moderada. Quando olhamos para a hipertensão, os achados são ainda mais animadores: meditação, ioga, técnicas de respiração e tai chi chuan aparecem com evidências moderadas e recomendações fortes para o controle da pressão e do estresse. Ou seja, há um espaço real para integrar essas práticas de forma complementar à terapêutica convencional, promovendo um cuidado mais integral e menos medicalizado. Já para o diabetes, a diversidade foi maior. Encontramos desde práticas corporais, como exercícios de ioga e tai chi chuan voltados para o pé e tornozelo, atuando na circulação sanguínea, até mindfulness e suporte psicológico, todos com potencial de apoiar no controle glicêmico e na prevenção de complicações. Também ficou claro que nem tudo é válido: práticas como apiterapia e ozonioterapia não mostraram evidências suficientes para recomendações. O ponto em comum dos estudos que desenvolvemos é que eles mostram como as evidências podem orientar escolhas mais qualificadas sobre Pics dentro do SUS. Quando a gente traz clareza sobre o que pode funcionar e em que contexto, abrimos caminho para uma expansão mais segura e sustentável dessas práticas. Em outras palavras: estamos falando de ampliar acesso e integralidade, mas sem abrir mão do rigor científico que garante qualidade e legitimidade ao sistema de saúde.
Boletim Evidências – Que conceitos e epistemologias devem ser adotados nos estudos acerca de Pics no Brasil?
JORGE BARRETO – Quando falamos da adoção de Pics no Brasil, não dá pra pensar só na lógica biomédica tradicional. Claro que precisamos do rigor científico, da avaliação crítica das evidências, do uso de metodologias como o Grade, que é um sistema de avaliação da confiança que podemos atribuir às evidências apresentadas em estudos experimentais, e do apoio das diretrizes clínicas. Isso ajuda a garantir legitimidade e segurança. Mas, ao mesmo tempo, é fundamental abrir espaço para epistemologias que reconheçam a diversidade cultural, histórica e social dessas práticas. Algumas Pics têm raízes em diferentes matrizes de conhecimento e carregam saberes que não cabem inteiramente nos moldes da ciência biomédica. Então, os estudos precisam pensar em como adotar uma perspectiva intercultural, capaz de dialogar entre diferentes formas de produzir e validar conhecimento. Isso significa valorizar tanto ensaios clínicos e revisões sistemáticas quanto experiências comunitárias, estudos qualitativos e avaliações participativas. Outro ponto é olhar para as Pics sob a lente da integralidade e dos determinantes sociais da saúde. Não se trata apenas de medir desfechos clínicos, mas de entender como essas práticas contribuem para autonomia do paciente, redução de iniquidades, promoção de bem-estar e fortalecimento do SUS enquanto sistema universal. Os estudos sobre Pics no Brasil precisam encontrar o caminho para combinar a base da política informada por evidências com epistemologias que reconheçam a pluralidade dos saberes e a relevância da experiência dos usuários e comunidades, como os conhecimentos sobre saúde das comunidades indígenas e tradicionais, por exemplo. Essa é a chave para construir conhecimento mais útil, legítimo e alinhado com a realidade brasileira.
Boletim Evidências – A produção científica referente ao tema Pics vai da ciência veterinária à química/biologia, passando pela saúde pública. O que precisa ser fortalecido, aprimorado ou incluído nos estudos feitos por diferentes áreas das ciências?
JORGE BARRETO – De fato, a pesquisa sobre Pics no Brasil já é muito diversa, mas eu penso que ainda é preciso mais conexão entre áreas. Hoje temos desde estudos laboratoriais, na química e biologia, até pesquisas em saúde pública, mas muitas vezes pode ser difícil fazer o diálogo entre estas evidências funcionar bem. O caminho poderia ser aproximar os campos e conectar os achados da bancada ao cuidado real no SUS, por exemplo, seguindo um pouco do aprendizado da Medicina Translacional, que se esforçou para conectar a ciência básica e a prática clínica, para traduzir descobertas laboratoriais em novas terapias e diagnósticos disponíveis para as pessoas. Penso que também é preciso investir em métodos mais robustos e padronizados, tanto para garantir reprodutibilidade nas ciências básicas quanto para avaliar eficácia, custo efetividade e impactos sobre a saúde pública. Um derradeiro ponto seria ampliar o olhar das ciências sociais, para entender o uso cultural e comunitário das práticas, e fortalecer redes de colaboração nacional e internacional. Acredito que esses aspectos poderiam favorecer a produção de evidências não só mais sólidas, mas também mais contextualizadas e úteis para orientar políticas e serviços.
Boletim Evidências – Na medicina há áreas afins de cuidado como Cuidados Paliativos, Naturologia etc. Como esses campos estão dialogando com as Pics?
JORGE BARRETO – Eu não sou especialista em nenhum desses campos, mas entendo que eles têm proximidade com as Pics porque compartilham a ideia de olhar o paciente de forma integral, valorizando qualidade de vida, bem-estar e dimensões que vão além do sintoma físico. Sabemos que nos cuidados paliativos, por exemplo, práticas como acupuntura, meditação, musicoterapia e técnicas de relaxamento já são bastante usadas para aliviar dor, ansiedade e melhorar o conforto. Elas entram como complementares aos tratamentos convencionais, sempre com foco no cuidado centrado na pessoa. De naturologia eu entendo bem menos, mas acredito que é um campo que dialoga diretamente com várias práticas reconhecidas na Política Nacional de Pics, como fitoterapia, aromaterapia, reflexoterapia e práticas corporais. Acredito que esses campos não competem com as Pics, mas, ao contrário, podem ajudar a consolidar sua adoção responsável e com resultados para a população, trazendo também legitimidade acadêmica e prática, e reforçando a ideia de cuidado mais humano e integral dentro do SUS.
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