Experiência | Entrevista - José Ricardo Ayres
O professor e pesquisador da Universidade de São Paulo (USP) José Ricardo Ayres, médico e sanitarista, tem o cuidado em saúde como um dos temas de seus trabalhos. Ele expõe alguns conceitos a seguir.
Evidências - Como o senhor define o cuidado em saúde e na saúde pública?
José Ricardo Ayres - Penso poder definir o cuidado em saúde como a construção compartilhada, entre profissionais e destinatários do cuidado, lançando mão de saberes tecnocientíficos e saberes práticos, de escolhas virtuosas sobre o que fazer (e o que não fazer) para promover, proteger ou recuperar o que cada um considera ser a condição necessária para seguir em busca de seus projetos de felicidade, seja no plano das pessoas, seja no das comunidades e grupos sociais.
Evidências - Em trabalhos publicados, o senhor fala do excesso de tecnologia afetando as práticas médicas. O que a tecnologia, o mecanicismo e a divisão minuciosa da clínica médica e demais ciências da saúde reproduziram negativamente na relação profissional e paciente/usuário?
José Ricardo Ayres - O problema do uso das tecnologias na saúde não é o da quantidade, em si. Em certas condições, um volume alto desses recursos é necessário – em uma UTI, por exemplo. O problema é quando ela é usada de forma irracional, substituindo o conhecimento genuíno das pessoas e das comunidades, gerando ações ineficazes, danosas e muitas vezes inutilmente dispendiosas, deixando de lado um dos mais potentes recursos de cura: a interação humana.
Evidências - Um dos princípios do SUS é a promoção da saúde integral e distribuída com equidade. O cuidado também precisa dar conta desses aspectos?
José Ricardo Ayres- Claro! Sem os princípios do SUS não há verdadeiro cuidado. Se não for de acesso público e universal o sistema já estará excluindo muitas pessoas do cuidado; se não se orientar pela equidade o sistema vai tratar desiguais como se precisassem do mesmo cuidado; e para oferecer universalmente o cuidado de que cada um ou uma precisa, é indispensável que o conjunto dos recursos da atenção à saúde seja integrado e disponibilizado para as pessoas.
Evidências - Como a expressão do cuidado deve estar presente na formação?
José Ricardo Ayres -Desde o início da formação em saúde é preciso estimular a sensibilidade às pessoas de quem vamos cuidar, buscar ativamente as narrativas sobre suas experiências de saúde, adoecimento e cuidado, valorizar seus saberes práticos e compartilhar com elas também os saberes técnicos. É preciso enraizar esse potente encontro que é cuidar em uma genuína e generosa vontade de participar positivamente da construção de uma vida boa e digna, para si e para sua comunidade.

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