Um mapeamento inédito iniciado pelo ObservaPICS  pretende identificar, no diretório do CNPq,  grupos de pesquisa que trabalham com saberes tradicionais e práticas integrativas e complementares em saúde. A primeira fase do estudo  mostra 548 grupos no Brasil, a maioria de universidades públicas, utilizando como descritores de pesquisa temas de interesse das medicinas tradicionais e das PICS. Desses, 494 estão devidamente certificados e o mais antigo existe desde 1965.

Os dados preliminares, liberados aqui no site, também são divulgados na segunda edição do Boletim Evidências. Plantas medicinais e fitoterapia são os descritores que aparecem com maior frequência nesse recorte, sinalizando o tamanho do conhecimento que pode ser gerado com o estudo da biodiversidade brasileira, a maior do mundo.

Biomas

Com 8,5 milhões de quilômetros quadrados de extensão territorial, ocupando quase a metade da América do Sul, o Brasil possui diferentes zonas climáticas, do trópico úmido do Norte ao Semi-Árido nordestino, incluindo as áreas temperadas do Sul.São biomas variados, como a Floresta Amazônica, a maior tropical úmida do mundo, o Cerrado de Savanas e Bosques, a Caatinga do Semi-Árido, a Mata Atlântica e os campos dos Pampas, além dos manguezais, recifes de corais, lagoas, estuários e pântanos, abrigando espécies vegetais e animais, nada menos que 20% das existentes na Terra. Nesse conjunto estão as plantas com seus fins terapêuticos.

A universidade e o SUS

O mapeamento iniciado pelo ObservaPICS quer tonar mais visível informações geradas no campo científico sobre PICS e medicinas tradicionais que podem auxiliar a prática no Sistema Único de Saúde. “É preciso construir diálogos com a academia e institutos para traduzir os resultados dos estudos em instrumentos que orientem decisões nas políticas públicas”, argumenta a coordenadora do observatório, pesquisadora Islândia Carvalho, da Fiocruz Pernambuco.  Ela lembra que gestores têm dificuldade de acesso a estudos de modo claro e objetivo e, por outro lado, nem sempre as pesquisas estão contextualizadas para abarcar resultados de efetividade, limitando-se à eficácia.

Dos 494 grupos certificados, 32% (157) se concentram nas ciências da saúde, 30% (149) nas ciências biológicas e 21% (103) nas agrárias. Os demais 16% (85) estão distribuídos nas exatas e da terra 9,8%(48) e nas ciências humanas, sociais aplicadas, engenharias, linguística, letras e artes  6,2% (37).

Nova etapa

Na segunda etapa do levantamento, iniciada, será possível indicar quantos grupos de fato pesquisam PICS e medicinas tradicionais no Brasil, explica a coordenadora do observatório. Entre os achados preliminares, ela destaca a transversalidade dos temas nas ciências, a distribuição dos grupos por região geográfica, concentrando-se mais no Sudeste, e o protagonismo das instituições públicas.

Aqui no site, é possível acessar o banco de dados mais detalhado desse primeiro levantamento. Leia agora o relatório síntese, para entender a metodologia aplicada, os motivos dessa iniciativa do ObservaPICS e como os grupos estão distribuídos no país.

 

 

 

MAPEAMENTO DE GRUPOS DE PESQUISA NO DIRETÓRIO DO CNPq

O Observapics tem como uma de suas metas identificar os pesquisadores do Brasil que realizam estudos na área de práticas integrativas e complementares em saúde e saberes tradicionais no Brasil. Conhecê-los é o primeiro passo para construir diálogos entre esses grupos e o Sistema Único de Saúde. Pretendemos dar visibilidade aos resultados das pesquisas para auxiliar gestores do SUS na tomada de decisão, e, ao mesmo tempo, aproximar o campo científico da vivência prática. O uso de evidências científicas na tomada de decisão em políticas públicas é um desafio mundial. Gestores não têm o devido acesso aos resultados dos estudos de modo claro e objetivo. E a produção científica às vezes carece de contextualização, deixando de abarcar resultados de efetividade além dos que fazem referência à eficácia. Tendo em vista a inexistência de publicações acerca do assunto, realizou-se uma investigação no Diretório dos Grupos de Pesquisa do CNPq, bem como uma caracterização dos grupos que trabalham com temas afins. Espera-se, com a divulgação da produção científica do campo, contribuir para a ampliação do conhecimento sobre as práticas integrativas e complementares, para sua consolidação no SUS, bem como para o adequado direcionamento de investimentos na qualificação de evidências científicas e práticas que promovam o cuidado em saúde.

 

O MÉTODO

O acesso ao diretório do CNPq se deu pelo site da Plataforma Lattes – CNPq – http://lattes.cnpq.br/web/dgp, na opção ‘’grupos’’ – ‘’consulta parametrizada’’ – ‘’termo de busca’’. A coleta dos dados seguiu os seguintes passos:

Fase 1 – Realizada uma busca abrangente no diretório, utilizando os seguintes descritores e suas variações: Acupuntura, antroposofia, arteterapia, bioenergética, constelação familiar, dança circular, fitoterapia, homeopatia, medicina andina, medicina complementar, medicina tradicional, meditação, musicoterapia, naturopatia, osteopatia, ozonioterapia, plantas medicinais, práticas integrativas, práticas integrativas e complementares, racionalidades em saúde, reiki, terapia comunitária, termalismo e yoga.

Fase 2 – Após identificação dos grupos pelo descritor, pesquisou-se individualmente cada grupo para excluir as duplicações, visto que um poderia estar usando dois descritores, mas também grupos diferentes poderiam ter o mesmo nome. Considerando essa última situação, foram analisados os objetivos e o líder de cada grupo. A estratégia permitiu, em caso de não localização pelo nome do grupo, a identificação a partir do nome do líder. Nessa fase, também foram excluídos os grupos que explicitamente não estavam ligados à área, a exemplo de grupos que usavam o descritor bioenergética, porém estava ligado à área de bioquímica.

Fase 3 – Para validação dos resultados, analisou-se a certificação dos grupos no Diretório do CNPq e a instituição do grupo. Em cada um foram analisadas as seguintes informações: nome do grupo, descritor, instituição, tipo de instituição, estado, região, data da pesquisa, situação do grupo, ano de formação, nome do 1º líder, nome do 2º líder, área predominante, subárea, telefone, e-mail, objetivo do grupo, quantidade de mestres, doutores, especialistas, graduandos e outros, objetivos e linhas de pesquisas.

Fase 4 – Em cada etapa, foram sendo excluídos alguns grupos que não estavam nos critérios de pesquisa, tais como: a) grupo certificado; b) alinhamento do objetivo do grupo com a área de pesquisa. O diagrama mostra as fases de coleta e a composição do corpus de dados após a utilização dos critérios de exclusão.

 

RESULTADOS PRELIMINARES

Na análise preliminar identificamos alguns aspectos quantitativos dos 494 grupos certificados. Tal abordagem permitiu identificar de modo geral as características dos grupos para aprofundarmos em um segundo momento com uma pesquisa qualitativa.

Número de grupos – De modo geral há um expressivo número de grupos pesquisando temas afins das PICS no Brasil: 494 grupos certificados e 54 em certificação e/ou preenchimento no diretório do CNPq. Os grupos que não atualizam por mais de 12 meses seus dados na base de dados, são não certificados e, portanto, não ficam acessíveis. No entanto, os grupos em preenchimento podem ser visualizados.

Tempo de formação – Os resultados evidenciam que desde 1965 há grupos de pesquisas em PICS com expressivo crescimento nas últimas décadas. Destaca-se que o primeiro grupo de pesquisa  formado com o tema plantas medicinais foi criado  em 1965 com o estudos. Até 1995, houve aumento gradual, acelerando a partir de 2000, com a formação de 24 grupos, mais 37 em 2002 e 38 em 2016. As ciências Agrárias destacam-se nessa expansão.

Transversalidade das PICS – Um aspecto revelado é transversalidade do tema por diferentes áreas, das ciências biológicas às ciências agrárias. Apesar de 32% (157) dos grupos se concentrarem nas Ciências da Saúde, as Ciências Biológicas 30%(149) e Agrárias 21% (103). Os demais 16% compreendem as áreas das Ciências Exatas e da Terra 9,8%(48) e as Ciências Humanas, Ciências Sociais Aplicadas, Engenharias, Linguística, Letras e Artes 6,2%. Um fato interessante é que a maioria dos grupos de pesquisa que tinham o descritor “homeopatia” estava concentrada nas Ciências Agrárias, na subárea de agronomia, o que nos leva a indagar sobre que evidências científicas poderão ser obtidas nesses grupos.

Biodiversidade brasileira na ciência – Mesmo com transversalidade do tema, os resultados demonstram que quase 70% dos grupos estudam as plantas medicinais, mesmo que associado a outras PICS, Esse tema junto com a Fitoterapia está presente em quase 80% dos grupos pesquisados. Estão mais concentrados na Biologia e Saúde Coletiva, demonstrando um campo transdisciplinar potente para construção do desenvolvimento sustentável para as políticas públicas. Além disso, outro aspecto a ser aprofundado são as pesquisas junto aos povos tradicionais.

As instituições públicas e seu protagonismo na ciência – Diferentes estudos demonstraram que as universidades públicas são as instituições que mais produzem ciência no país. Apesar das PICS constituírem um tema específico, 86,2% dos grupos de pesquisas estão em instituições públicas, como visto em outras áreas, e 13,8% dos grupos são vinculados a instituições privadas. No que se refere ao tipo de instituição ao qual os grupos estão ligados, 86% são instituições de ensino superior, 10,3% são institutos, e os demais 3,6% são fundação e outros.

Distribuição nacional – Todas as regiões e estados brasileiros possuem grupos de pesquisa ligados à temática, sendo que as regiões Sudeste e Nordeste concentram 58,3 % dos resultados. Os estados que mais possuem grupos estão distribuídos nas regiões Sudeste e Sul: Minas Gerais 10,7% (53 grupos), São Paulo 10,5% (52 grupos), Rio de Janeiro 9,5% (47 grupos) e Paraná 9,7% (45 grupos). Na região Norte, destaca-se o estado do Amazonas, com 22 grupos cadastrados (4,6%). No Nordeste, Pernambuco apresenta 27 grupos (5,6%). O Mato Grosso do Sul é o estado da região Centro-Oeste com maior número de grupos cadastrados, totalizando 12 (2,5%). Em todos os estados com maior número de grupos cadastrados em cada região, observa-se uma predominância de grupos relacionados ao descritor “plantas medicinais”. Em contrapartida, apenas os estados do Amazonas, Santa Catarina e São Paulo apresentaram grupos relacionados com os descritores “medicina tradicional” e “medicina andina”, totalizando 3 grupos.

SEGUNDA ETAPA

Os resultados quantitativos demandaram ao ObservaPICS uma segunda fase da pesquisa, que consiste na análise qualitativa dos dados, bem como na realização de um inquérito por e-mail aos líderes dos grupos pesquisados. Todos os 494 certificados estão sendo contatados por e-mail e/ou telefone e em breve os resultados serão divulgados no nosso site.

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