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O valor de culturas milenares

texto por Kellen Natalice Vilharva Guarani Kaiowá *

Os povos indígenas possuem uma forma única de enxergar o mundo. O conhecimento indígena está por todo canto, nas comidas, nos alimentos, nos medicamentos, nas crenças no dia-a-dia do brasileiro. Apesar de estar muito presente, toda essa riqueza cultural não tem o valor reconhecido pela sociedade e dentro das universidades não é diferente. É como se o saber ancestral precisasse de uma comprovação científica, como se precisasse de uma lógica ocidental, algo impossível.

Obras como Jardins da história: medicinas indígenas vêm para quebrar esse cenário, respeitando a riqueza de conhecimento, respeitando como os detentores desses saberes querem que eles sejam transmitidos. Trazem assim o respeito e o registro de forma belíssima, falando sobre as plantas medicinais na sua totalidade, não apenas no foco da ciência ocidental, mas também na ciência ancestral indígena.

O que torna essa obra tão especial? Nessas páginas estão registrados saberes milenares que sobreviveram e continuam
a sobreviver a todo o tipo de genocídio. Em suas páginas estão registrados saberes de povos do Norte ao Sul do Brasil, demonstrando a riqueza e o valor cultural dos povos indígenas. Como diz a liderança Kaiowá Valdelice Veron, estão fazendo o papel falar, estão dando voz a esses saberes através dessas páginas. As vozes dos nossos ancestrais foram respeitadas.

Eu, enquanto indígena Guarani Kaiowá, fico feliz em ver a sensibilidade em registrar as crenças que explicam o uso das plantas, assim como as lindas ilustrações que fazem o leitor viajar nesses contos. Da mesma forma que em minha comunidade os mais velhos nos contam as histórias e os porquês e significados, esse livro traz essa mesma sensação.

Para nós indígenas, quando falamos de plantas medicinais não falamos apenas de suas propriedades, mas sim do significado, das crenças, das histórias que estão em torno daquelas plantas. É como se realmente fosse um jardim com espécies contento várias histórias e significados diferentes, um jardim de histórias.

*Kellen Natalice Vilharva Guarani Kaiowá é bióloga e doutoranda em clínica médica pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

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