Quem atua com práticas integrativas e complementares em saúde no SUS ou pretende implantar algum atendimento nesta área conta agora com informes técnicos da Coordenação Nacional da Política de PICS apontando evidências científicas do uso de diferentes modalidades como apoio à prevenção e ao controle de problemas crônicos como hipertensão, obesidade, diabetes e na manutenção da saúde mental.

Meditação (foto), acupuntura,  fitoterapia, yoga e práticas corporais da Medicina Tradicional Chinesa, como o tai chi chuanqi gong, podem ser aliadas  desses programas.

“Com as sínteses sobre os principais achados acerca do tema pretendemos fomentar a discussão científica no campo das PICS e subsidiar os gestores do SUS na implementação das práticas”, justifica Daniel Amado, coordenador nacional de PICS.

As informações divulgadas baseiam-se em análise de mapas de evidência/efetividade clínica das práticas integrativas e complementares elaborados pelo Consórcio Acadêmico Brasileiro de Saúde Integrativa (CABSIn) e em revisões de literatura, produzidas sob encomenda da CNPIC, por uma equipe de pesquisadores coordenados pela unidade da Fundação Oswaldo Cruz em Brasília. O CABSIn é uma rede formada por mais de 800 pesquisadores no Brasil. Os estudos mapeados pelo consórcio e pela Fiocruz foram publicados em grandes bases de dados e passaram por análise de comitês técnicos que verificaram parâmetros de qualidade.

Leia mais sobre o tema no nosso Boletim Evidências 5 e acesse os informes da CNPIC:

Informe Evidência – depressão e ansiedade

 

Informe evidência – hipertensão

 

Informe evidência – obesidade e DM

 

Como são feitas as análises de evidências publicadas

 

O pesquisador da Fiocruz Brasília Jorge Otávio Maia Barreto (foto/Facebook), estudioso das políticas informadas por evidências, coordenou a revisão de publicações científicas acerca de práticas integrativas e complementares em saúde que auxiliou a Coordenação Nacional de PICS na produção dos informes referentes às doenças crônicas. Inicialmente, Barreto e equipe produziram análises de artigos que abordaram resultados com acupuntura, auriculoterapia, meditação e ioga, apontando os achados mais relevantes. Novas revisões abrangendo dez outras práticas estão sendo concluídas. Em entrevista ao ObservaPICS para a 5ª edição do Boletim Evidências, ele explica conceitos adotados na classificação e os critérios aplicados em torno da confiabilidade das pesquisas publicadas. As revisões rápidas, destaca, “são produtos de tradução do conhecimento possíveis de serem acessados por todos os públicos”. Confira os assuntos abordados na conversa:

O MÉTODO APLICADO

“Nosso método de revisão rápida é focado na literatura global e inclui revisões sistemáticas sobre efeitos. Revisões sistemáticas são estudos de síntese que agrupam os resultados de vários, se possível todos, estudos primários sobre efeitos de uma intervenção em saúde, por exemplo. Avaliamos a qualidade das revisões sistemáticas e a confiança nos achados a partir de instrumentos consagrados de avaliação metodológica, como o AMSTAR 2 (https://amstar.ca/Amstar-2.php). A partir dessa avaliação é possível considerar a qualidade metodológica como um critério para atribuir níveis de confiabilidade sobre os achados das revisões sistemáticas.”  Isso quer dizer, primeiro, que os resultados devem ser considerados de forma mais cautelosa e que as conclusões podem não ser definitivas, em face da fragilidade das evidências. E segundo, que os estudos disponíveis ainda representam uma lacuna a ser explorada pelos pesquisadores para a produção de evidências com maior robustez e mais confiáveis. As revisões não são focadas em estudos nacionais, então essas conclusões não são sobre a literatura produzida pelo Brasil, mas global, logo, o Brasil pode ser incluído no contexto da necessidade de mais estudos sobre as PICS, envolvendo desenhos mais robustos e melhor qualidade metodológica. Na verdade, posso dizer que essa constatação de lacuna metodológica é bem comum em diversas áreas da pesquisa em saúde, mas os avanços sempre vão na direção de reduzir isso.

BASES CONSULTADAS

“São incluídos estudos produzidos em todo o mundo, não apenas no Brasil, porque vasculhamos pelo menos cinco grandes bases indexadas globais. A ideia é mapear todas as revisões sistemáticas existentes no mundo, que responderam uma pergunta estruturada previamente. As questões contextuais, que são uma temática recorrente quando se fala em revisões sistemáticas, não são consideradas como uma barreira à identificação de efeitos, porque muitas vezes encontramos resultados similares em contextos muito diferentes, o que fortalece a ideia de que a intervenção pode funcionar em um outro contexto também diverso”. 

RESULTADOS PARA SUBSIDIAR AÇÕES

“Foram muitos resultados interessantes, mas é importante ter em mente sempre a ideia de que as evidências são um subsídio para julgamentos mais complexos, seja no âmbito clínico, na elaboração de um protocolo de atenção ou na elaboração de um programa ou política. Assim, o mais importante muitas vezes é ter o mapa de evidências à disposição para ser considerado por diferentes atores interessados nas PICS, além dos pesquisadores, gestores, trabalhadores e especialmente os cidadãos são potenciais destinatários destas informações, para que usem esses elementos na sua deliberação sobre questões relacionadas.”

EFETIVIDADE E EFICÁCIA

“Quando falamos de ‘efeitos’, espera-se que o delineamento metodológico seja capaz de explorar isso. Em geral estão disponíveis estudos clínicos que avaliam uma intervenção em comparação com outras, os conhecidos ensaios clínicos controlados. A padronização desses métodos possibilita que os resultados de diversos estudos primários sejam agrupados, como um grande estudo único, mediante o uso de técnicas de metanálise e aí temos uma evidência mais robusta sobre os potenciais efeitos de uma intervenção para uma finalidade específica. Algumas práticas, por exemplo, mindfulness (meditação) e acupuntura, têm sido mais estudadas do que outras, possibilitando a obtenção de resultados mais robustos. Às vezes pode ser difícil realizar metanálises, devido à grande heterogeneidade entre os estudos com relação às intervenções analisadas. No entanto, nas revisões rápidas sobre PICS que desenvolvemos, há resultados de metanálises, agrupando os resultados de diferentes estudos clínicos que avaliaram as intervenções/desfechos de interesse.  No campo da Avaliação de Tecnologias em Saúde, a ‘eficácia’ pode ser entendida como a probabilidade de que indivíduos de uma população definida obtenham um benefício da aplicação de uma tecnologia a um determinado problema em condições ideais de uso. A ‘efetividade’ é a probabilidade de que indivíduos de uma população definida obtenham um benefício da aplicação de uma tecnologia a um determinado problema em condições normais de uso. Essa definição é adotada amplamente, inclusive no Brasil”. 

QUEM PRODUZ E QUEM PODE SE BENEFICIAR

“É uma equipe grande envolvida. Há uma forte participação do Centro de Tecnologias de Saúde para o SUS/SP, do Instituto de Saúde de São Paulo, que trabalha há algum tempo de forma bastante integrada e produtiva com a Fiocruz Brasília. Além disso, a Coordenação Nacional de PICS do Ministério da Saúde também tem uma atuação importante como demandante destes pequenos estudos de revisão rápida. As revisões podem favorecer a redução da assimetria de informação que geralmente existe entre os grupos sociais interessados em questões de saúde, que compreendem o governo, a academia e a sociedade, de uma maneira bem geral”.

 

Evidências 5 aborda o apoio das PICS na atenção primária para controle de doenças

Oferta de PICS cresce na atenção primária e especializada