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Em entrevista ao ObservaPICS, o criador da Terapia Comunitária Integrativa (TCI), o psiquiatra e antropólogo Adalberto Barreto revela resultados da TCI no formato presencial, na comunidade Pirambu, em Fortaleza (CE), onde é praticada há 33 anos, e no modelo virtual, adotado durante a pandemia do novo coronavírus.

OBSERVAPICS – Como surgiu a TCI?

Na universidade, eu atendia as pessoas na psiquiatria com dez estudantes de medicina quando o centro de direitos humanos no qual meu irmão era advogado, no Pirambu, começou a me mandar pessoas que, além de problemas de direitos humanos, tinham depressão, insônia. Enquanto era um, dois, três eu colocava lá no meio do que já estava marcado. Um dia chegaram tantos lá no hospital e eu disse que não mande mais, não. Reúna as pessoas aí que eu vou fazer um mutirão com meus alunos para vê-los. Lá tinham 33 pessoas, todas querendo remédios (psicotrópicos). Como eu não tinha remédios para dar, fiquei escutando e me dei conta que se tratava muito mais de sofrimento para ser acolhido do que patologia para ser medicalizada. Sofrimento não se medicaliza, se acolhe com os recursos que se tem. Eu vi uma mulher começar a chorar e veio a vizinha dar um lenço para enxugar as lágrimas. Outra deu um copo d’água. Outra fez massagem nos pés. E outra contou sua história. Ao final, essa mulher estava cheia de gente em torno dela e bem tranquila. Daí percebi que ela precisava muito mais de apoio do grupo do que de minha expertise como psiquiatra. A partir disso, conclui que eles têm problemas e eles têm soluções. E resolvi estruturar isso porque as pessoas estão atrás de apoio mútuo. Ali foi a semente da TCI, que não é concorrente (da medicina) e sim complementar. 

OBSERVAPICS – O que diferencia a TCI da psicoterapia?

A psicoterapia trabalha com patologia. A pessoa que tem uma doença mental, uma neurose. A terapia comunitária é a comunidade que acolhe calorosamente as pessoas. O terapeuta é a comunidade, não é a pessoa. O terapeuta comunitário não faz análise, interpretação, não dá conselho. Ele aprende a fazer perguntas para que as pessoas descubram, com suas próprias reflexões, questões que na hora do conflito não dá. A metodologia é muito simples. A gente parte de uma situação problema, por exemplo, a pessoa insone. A pessoa fala, você contextualiza, essa pessoa fica em stand by e a gente pergunta ao grupo quem já teve insônia e o que fez para resolver. Um diz eu tomei chá de capim-santo e o outro diz a solução é caminhar. A realidade é uma universidade também. A academia não tem a hegemonia da produção do conhecimento. Os pesquisadores e as universidades produzem conhecimentos importantíssimos e necessários, mas a experiência também produz conhecimento. E é na TCI onde resgatamos e socializamos o saber construído individualmente e, às vezes, esquecido.

OBSERVAPICS – A TCI  foi aplicada em pandemias antes?

Ela foi tema de capacitação aqui no Brasil, pelo Ministério da Saúde, para calamidades públicas, como em Minas Gerais (caso de Brumadinho) e no Rio de Janeiro, quando houve deslizamentos, há oito, dez anos. Foram treinados, creio eu, cerca de 600 pessoas. Técnicos, pessoal da defesa civil, bombeiros. A ideia central é que para cada destruição material a TCI propõe uma construção simbólica. Isso foi quando ela nasceu no Pirambu. Cada vez que morria uma pessoa ou a polícia destruía casas de pessoas em invasões de terras, que tinha um morto ao lado dos escombros da casa, a gente sentava para fazer uma construção simbólica. Destruíram nossa casa de madeira, de papelão, mas não destruíram nossa esperança. O que vamos precisar para construir nossa casa, nossa comunidade, reconstruir nossos vínculos? Havia toda uma discussão em nível simbólico,  nível mental. Que aquela destruição não veio para destruir nossa esperança, o imaginário. Nós temos na alma da TCI essa mística de reconstruir a esperança, de fazer as pessoas acreditarem em si.

OBSERVAPICS – Como foi a adaptação da TCI para o modo on-line?

Fiz um vídeo para os terapeutas comunitários de todo o Brasil dizendo que chegou a hora de usar nossa criatividade e me coloquei à disposição para ir orientando. Primeiro fiz com eles (um teste), que gostaram e fizemos uma avaliação. Vimos como incluir música e slides. No início dediquei meu tempo direto, direto, inventando, fazendo. Eu fazia com os que estavam inseguros e na semana seguinte mandava eles fazerem só. Depois fazia a supervisão com orientação. 

OBSERVAPICS – Como está sendo fazer terapia comunitária via on-line?

É a descoberta que a tecnologia aproxima as pessoas em um momento onde o sofrimento é estar longe, não poder tocar, não poder abraçar. É um paradoxo porque nas catástrofes a solução era estar do lado. No momento atual, a medida de proteção é ter distância física, se isolar para não contaminar. Isso é um elemento novo em um momento de calamidade pública. É o contrário do que está em nossa memória. Isso gera ansiedade.  A gente sabe, a OMS nos lembra, que a melhor resposta em face de uma calamidade é o apoio do grupo. Pessoas nos quais você pode se apoiar, mesmo que você não as conheça. Como o objetivo da terapia comunitária é a construção de vínculos, socialização do saber, nós fazíamos isso de forma natural. Abraço, olho no olho, mão no ombro do outro. Com essa nova realidade decidimos nos adaptar. Essa experiência está sendo mais que satisfatória. A gente se emociona também. A gente vê a pessoa naquele quadradinho, vê os olhos dela. Hoje cada pessoa tem seu smartphone. Quatro vão para o restaurante e cada uma está ligada no seu celular. A grande descoberta é que essa mesma tecnologia que nos distancia pode nos aproximar mais. Estamos fazendo rodas de cem pessoas pelo Zoom e estamos conectados pela tecnologia. A tecnologia nos humaniza também.

OBSERVAPICS – O que você vem percebendo nas rodas virtuais ao longo dos meses de pandemia?

De março a agosto de 2020 foram realizadas 695 rodas on-line com a participação de mais de 13 mil pessoas oriundas de 16 países (além do Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai, Chile, Peru, Equador, Bolívia, Colômbia, República Dominicana, México, Portugal, França, Suíça, Itália e Estados Unidos) e foram apresentadas 3.475 inquietações temáticas. As mais frequentes foram, primeiro, medo e ansiedade por causa das incertezas (49,6%). Destacam-se três grandes medos. O medo de recomeçar e enfrentar o futuro. ‘Como será depois do coronavírus?’ ‘Serei capaz de retomar minha vida, meu lugar, meu emprego?’ Perder pessoas importantes, como familiares e amigos e não poder mais abraçá-los ou encontrá-los. O medo de contaminar e ser contaminado. Nesse contexto de medo, de lidar com o desconhecido, emerge uma grande preocupação com os outros, graças à empatia. O segundo é o sentimento de impotência (22%). E destaca-se o sentimento de estar com as mãos atadas. Querer e não poder ajudar as pessoas queridas. ‘Estou assistindo aos acontecimentos sem poder fazer nada’. ‘Temo pelos meus pacientes hospitalizados com os recursos técnicos limitados’, dizia um médico. Muitos se referem a um sentimento de ter sua liberdade cerceada e de levar uma vida como uma criança, dependente e vivendo sob tutela. E a terceira, dificuldade de gestão das relações familiares (18%). Dizia uma mãe: ‘Não estou sabendo lidar com a agressividade dos meus filhos, dos meus netos’. E por último, solidão, depressão, agressividade e outros (10,3%). A entrada e a saída do confinamento têm gerado muita ansiedade por causa das adaptações necessárias. Como dizia algumas pessoas, ‘me angustia ficar dividida entre o trabalho e a família’, ‘me adaptar às mudanças do trabalho para o tele trabalho’. Essa foi outra questão muito forte que apareceu. A TCI on-line tem acolhido sofrimentos e proporcionado a confiança na capacidade das pessoas se ajudarem. De se apoiarem, estimulando a resiliência por meio da partilha das experiências de vida e superações. Realizada em 15 países (além do Brasil) e quatro idiomas, as emoções eram as mesmas, evidenciando que a dor e o sofrimento não têm fronteiras e nos unem como humanidade. A TCI tem permitido uma desmedicalização do sofrimento, o uso dos recursos socioculturais disponíveis e uma mudança paradigmática de se articular os modelos clínicos, de abordagem individual, praticado pelos profissionais de saúde, com os modelos solidários, de maneira não concorrencial, mas complementar, ampliando as redes de apoio social. Para fazer isso, nós, os peritos, precisamos entender que não sabemos tudo. Ter humildade de reconhecer que precisamos uns dos outros. Ter consciência das próprias competências e limites e aceitar a contribuição dos outros como complementares. E isso só é possível se nós profissionais sairmos da posição do especialista que sabe e aprender com os outros, com pessoas comuns e com os colegas profissionais.